Deus sabe o que está em nosso coração ou não? E se sim, por que ele nos prova? Essa é a questão hoje, Pastor John, porque há pelo menos três textos no Antigo Testamento que parecem levantar essa mesma questão. Em Deuteronômio 8.2, Moisés escreve que Deus guiou os israelitas pelo deserto para “humilhar-vos… (e provar saber o que estava em vosso coração, se guardaríeis os seus mandamentos”. Da mesma forma, Deuteronômio 13.3 diz assim aos esraelistas: “(Deus) vos prova, para saber se amais o Senhor, vosso Deus, de todo o vosso coração e de toda a vossa alma. Também de forma desconcertante, 2 Crônicas 32.31 diz que Deus deixou Ezequias ser provado “saber tudo o que estava em seu coração”. Esses três textos, e outros, parecem apresentar uma contradição fundamental. Como pode um Deus onisciente que sabe tudo precisar “provar” ou “testar” para “descobrir” o que está no coração de alguém? Ele já não sabe o que está dentro de nós?
Ou dilema
Então:
- 2 Crônicas 32.31 : Deus provou Ezequias para saber tudo o que estava em seu coração.
- Deuteronômio 8.2: Deus provou Israel no deserto para saber o que estava em seus corações.
- Deuteronômio 13.3: Deus concedeu a um falso profeta a tarefa de prever o futuro, para saber se Israel amava o Senhor seu Deus.
- Juízes 3.4: Deus deixou algumas nações pagãs na terra prometida de Israel para saber se Israel obedeceria.
Em outras palavras, Deus os provou em todas essas situações para extrair de seus corações palavras e comportamentos que Deus pudesse ver e conhecer na realidade vivida.
E a questão é esta: como essas passagens se encaixam com as seguintes passagens sobre a onisciência de Deus?
- 1 Crônicas 28.9 : “O Senhor sonda todos os corações e entende cada plano e pensamento.”
- 1 Reis 8:39 : “Retribui a cada um (ó Senhor) cujo coração conheces, conforme todos os seus caminhos (pois tu, só tu, conheces os corações de todos os filhos dos homens).”
- Jeremias 17.10 : “Eu, o Senhor, esquadrinho o coração e provo a mente, para dar a cada um segundo os seus caminhos.”
- João 2.25 : “(Jesus) não precisava de ninguém para dar testemunho do homem, pois ele mesmo sabia o que havia no homem.”
- Atos 1.24 : “Eles oraram e disseram: ‘Tu, Senhor, que conheces os corações de todos, mostra qual destes dois escolheste (para ser o substituto de Judas)’”.
De fato, em João 13.19, Jesus deixa claro que sua capacidade de ver o que está no coração de Judas e saber o que ele faria ao traí-lo antes que ele o fizesse era uma evidência de sua divindade. Isso é muito importante — a presciência é muito importante; não é algo secundário. Isso é parte do que torna Deus Deus. Jesus diz: “Estou lhes dizendo isso agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vocês creiam que eu sou” (João 13.19). Isso é uma referência, eu acredito, ao nome divino do Antigo Testamento: “Eu sou o que sou” (Êxodo 3.14). “Estou mostrando a vocês agora mesmo, pela minha visão do coração e da mente de Judas antes que ele faça isso, que eu sou Deus.”
Essa questão sobre todas essas passagens e como elas se encaixam é importante, não apenas porque queremos ver a consistência da verdade bíblica, mas também porque há alguns teólogos que construíram uma teologia inteira em torno da afirmação de que Deus não pode saber com certeza o que o coração humano decidirá em qualquer momento futuro. Pode acreditar! Há teólogos que ensinam sistemas inteiros como esse.
Um dos nomes dados a essa teologia é teísmo abertoimplicando que o futuro está aberto à mente de Deus — ou seja, ele não sabe com exaustiva certeza o que vai acontecer hoje ou daqui a cem anos. Esta é uma visão profundamente diferente (e, creio eu, destrutiva) da visão que a igreja cristã tem sustentado há dois mil anos. Portanto, a questão é importante, tanto para verificar a consistência das Escrituras quanto para proteger a igreja desse tipo de erro grave.
Maneiras de saber
Acredito que a solução para essa aparente contradição reside no fato de que frequentemente falamos em conhecer algo de mais de uma maneira. Uma esposa pode dizer que sabe que o marido a ama — então, quando ele expressa esse amor de forma externa e prática e faz algum sacrifício incrível por ela, ela pode dizer: “Agora eu conheço o seu amor de uma maneira totalmente nova”.
Existem diferentes tipos de conhecimento. A Bíblia usa a palavra conhecer para relações sexuais (“Adão conheceu Eva, sua mulher, e ela concebeu”, Gênesis 4.:1) e para escolher e aprovar (“De todas as famílias da terra, somente a vós outros vos conheci”, Amós 3.2), e assim por diante. Não é de surpreender que Deus pretenda conhecer o seu povo de mais de uma maneira.
Aqui está uma ilustração bíblica de Jesus colocando Pedro à prova sobre o que está em seu coração, quando ele realmente sabe o que está em seu coração.
Depois de terem comido, perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros? Ele respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Ele lhe disse: Apascenta os meus cordeiros. Tornou a perguntar-lhe pela segunda vez: Simão, filho de João, tu me amas? Ele lhe respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Pastoreia as minhas ovelhas. Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta as minhas ovelhas. (João 21.15–17)
Ora, não há razão para pensar que Pedro estava enganado quando disse que Jesus sabia o que estava em seu coração antes que ele o expressasse ou agisse de acordo com ele. Jesus não o corrigiu quando disse: “Tu sabes todas as coisas” (versículo 17), o que significa que há um tipo de conhecimento que Jesus e Deus têm sobre o que está em nós e o que produzirá palavras e ações — esemelhante à esposa que vê o amor do marido em ação, Deus também se deleita em conhecer a concretização do que Ele sabe que está em nós.
O que Deus quer saber
Portanto, ele sabe o que está em nós e pretende saber de outra maneira — ou seja, na realização. Deus quer ver a realidade vivida do que ele sabe que está em nós. Existem dois tipos diferentes de conhecimento, e ele nos testa para trazer à tona o segundo tipo de conhecimento.
Aqui está mais um indicador dos diferentes tipos de conhecimento de Deus. O Salmo 1.6 diz: “O Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá”. Portanto, há um tipo de conhecimento que Deus tem do caminho dos justos que Ele não tem do caminho dos ímpios. “O Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá”. Este é o conhecimento da aprovação, o conhecimento do deleite, da escolha, do acolhimento.
Então, se a Bíblia pode retratar Deus como não conhecendo o caminho dos ímpios (que está bem diante dele, não em seus corações; é o caminho deles), então não devemos nos surpreender que a Bíblia também possa retratar Deus como não sabendo o que está no coração do homem — não significando de forma alguma que ele não esteja ciente disso, mas que isso ainda não se concretizou no caminho prático de ação, que é quando Deus conhece de forma diferente do que quando está apenas no coração do homem.
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