“Mas, de fato, habitaria Deus com os homens na terra? Eis que os céus e até o céu dos céus não te podem conter, quanto menos esta casa que eu edifiquei.” (2 Crônicas 6.18)
Depois que a rainha Elizabeth II morreu, milhões de pessoas em todo o mundo pararam para assistir à cobertura de seu funeral. Cerca de um milhão de pessoas lotaram as ruas de Londres para o cortejo fúnebre. E cerca de duas mil pessoas — incluindo quase cem chefes de estado — encheram a Abadia de Westminster para homenagear sua vida e caráter. Você pode imaginar que cada participante dirá a seus filhos e netos: “Eu estava lá.”
Da mesma forma, é seguro supor que aqueles que estavam presentes na dedicação do templo em Jerusalém teriam falado sobre isso com admiração e o teriam feito por toda sua vida.
Milhares de pessoas estiveram envolvidas na construção do templo durante o reinado de Salomão. Ocorreu durante um período de cerca de sete anos; Cerca de 70 mil homens carregavam cargas, 80 mil extraíam nas colinas e 3.600 estavam envolvidos como supervisores no projeto. Enquanto estava sendo construído, ficou claro que nenhuma despesa estava sendo poupada. O templo era dourado e exibia magnificência, com esculturas e pedras preciosas e revestido de ouro. O rei Davi desejava construir uma casa para o Senhor, mas Deus reteve esse privilégio dele e, em vez disso, concedeu-o a seu filho. Então Salomão acolheu isso com uma visão clara, dizendo: “A casa que edificarei há de ser grande, porque o nosso Deus é maior do que todos os deuses” (2Crônicas 2.5).
Podemos pensar que, na dedicação do templo, Salomão estaria dizendo a si mesmo: Isso pode ficar melhor? Mas, em vez disso, ele perguntou: “Mas, de fato, habitaria Deus com os homens na terra?” Essa é a grande questão. De fato, era grande este templo para Deus, mas era grande o suficiente para aquele a quem “os céus e até o céu dos céus não te podem conter”? Foi grande o suficiente para restaurar o tipo de relacionamento que Adão e Eva tiveram com Deus no Jardim do Éden?
Anos de construção, nenhuma despesa poupada, dezenas de milhares de pessoas envolvidas no projeto, uma celebração justificável de dedicação nesses momentos e, naquele momento, o rei Salomão não conseguiu evitar essa realidade: Deus é incontrolável. Por maior que fosse a morada que ele construísse, como poderia ser majestosa o suficiente para o Deus da criação? No entanto, de maneira surpreendente, o Deus que habitou nas “densas trevas” do Monte Sinai veio e se encontrou ali com seu povo (2 Crônicas 6.1; 7.1-2). É virtualmente impossível ler os capítulos iniciais de 2 Crônicas sem ficar impressionado — como Salomão ficou — com o fato de que o Deus Criador mais uma vez condescendeu em habitar com seu povo, em mais uma imagem do desejo de Deus por redenção e relacionamento com seu povo.
No entanto, por mais especial que o templo fosse como o lugar onde Deus se reunia com seu povo, permanecia a sensação de que o plano ainda estava incompleto. Qual é o porquê disso? Porque o plano de Deus sempre foi centrado em uma pessoa e não em um objeto ou lugar.
Ao ler sua Bíblia, essa verdade surge repetidamente. Pense na mulher no poço em João 4. A mulher vem encher seus recepientes com água e, no decurso da sua conversa com Jesus, faz uma pergunta sobre o lugar: “Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana (…) Nossos pais adoravam neste monte; vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar” (João 4.9, 20). Mas, parafraseando Jesus, ele essencialmente diz: Não se trata de um lugar: isso é sobre uma pessoa. Aqueles que realmente adoram o Pai o fazem em espírito e verdade, e eu sou o enviado para tornar isso possível (João 4.22-26).
O próprio Jesus é a Palavra eterna de Deus em ação; aquele que estava “no princípio” não poderia ser totalmente contido no templo de Salomão, mas ele escolheu assumir a forma humana. Por quê? Para habitar entre nós por um pouco de tempo, para que possamos habitar com ele para sempre. Em vez de perguntar: “Deus habitou na terra?”, nosso conhecimento do Novo Testamento nos permite afirmar: “Deus habitou na terra.”
J.I. Packer disse: “Nada na ficção é tão fantástico quanto essa verdade da encarnação.”(1) É um pensamento impressionante, não é? O Deus da eternidade se manifestou na pessoa do Filho para viver em sua própria criação sem deixar de ser Deus. A plenitude de Deus estava contida em um corpo humano. Aquele que moldou o cosmos tornou-se uma partícula em seu próprio cosmos. Ele habitou com seu povo no deserto, no templo e na fragilidade humana.
E ele ainda habita com seu povo hoje.
A maioria de nós gasta (ou pelo menos pretende gastar) uma boa parte de cada época de Natal refletindo sobre o fato de que Deus habitou entre nós na pessoa de nosso Senhor Jesus. Mas tendo vivido, morrido e ressuscitado, Jesus agora está fisicamente presente à direita do Pai nas alturas. Como, então, Deus habita agora na terra, no tempo e no espaço? A resposta é encontrada naquele a quem Jesus prometeu que seu Pai enviasse:
E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós. (João 14.16-17)
Deus graciosamente derramou seu Espírito Santo naqueles por quem seu Filho veio, viveu, morreu e ressuscitou. Aqueles que confiaram nele, aqueles que o amam, aqueles que foram reunidos como pedras vivas a Cristo, nossa pedra angular, são agora o próprio lugar onde Deus habita.
Neste Natal, podemos ficar maravilhados — assim como Salomão fez na dedicação do templo — ao considerarmos o fato de que Deus realmente habitou na Terra. E lembre-se, se você está em Cristo, “vocês também estão sendo edificados juntamente como morada de Deus pelo Espírito” e “o templo de Deus é santo, e vocês são esse templo” (Efésios 2.22; 1Coríntios 3.17). Deus edificou a sua própria casa para habitar na terra: a sua igreja, nós.
Para reflexão:
- Que diferença a leitura de hoje faz para sua visão de si mesmo e de sua igreja?
Nosso Deus, o céu não pode contê-lo,
nem a terra sustentá-lo;
Céus e terra passarão
Quando ele vier para reinar:
No meio do inverno sombrio
Um estábulo bastou para o Senhor Deus Todo-Poderoso,
Jesus Cristo.O que posso dar a ele,
pobre como sou?
Se eu fosse um pastor,
eu traria um cordeiro,
Se eu fosse um sábio faria a minha parte,
mas o que eu posso a ele eu dou, eu dou meu coração.“No meio do inverno sombrio”
Cristina Rossetti
O devocional acima faz parte do livro O Salvador chegou!, de Alistair Begg, publicado pela Editora Fiel em português em parceria com Truth For Life. CLIQUE AQUI para baixar gratuitamente o ebook deste devocional ou CLIQUE AQUI para comprar o livro impresso.
(1) JI Packer, Conhecendo Deus (Lisle, Illinois: InterVarsity Press, 2021), p 53.





