A soberania de Deus

Resumo: Este artigo explica a doutrina da soberania de Deus à luz da teologia reformada e das Escrituras, mostrando por que ela confronta a mentalidade pós-moderna e, ao mesmo tempo, oferece profundo consolo ao cristão. A partir de textos bíblicos e reflexões de Calvino, Lutero e Pink, o texto apresenta como o governo absoluto de Deus sustenta a fé, a esperança e a vida cristã. Escrito pelo Dr. Hermisten Maia, ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil. É formado em Teologia, Filosofia e Pedagogia. É Mestre e Doutor em Ciências da Religião. Leciona em diversos Seminários ininterruptamente desde 1980. Tem experiência na área de Teologia Sistemática, lecionando há 40 anos, e História da Reforma Protestante, atuando principalmente nos seguintes temas: João Calvino ,Teologia Reformada e Cosmovisão Reformada.


Na Cultura pós-modernamarcada pela busca de autonomia absoluta e pela rejeição de qualquer autoridade externa, a soberania de Deus soa como afronta. Vivemos em tempos em que a liberdade é exaltada como valor supremo, mas, paradoxalmente, ela mesma nos aprisiona em ansiedades e inseguranças. Defendemos princípios até que nos contrariem e, não raro, transformamos interesses pessoais em princípios vida.

Entre as doutrinas que mais sofrem com essa oscilação está a soberania de Deus. Em tempos de estabilidade, preferimos falar de nossa autonomia e capacidade de escolha. Mas quando nos vemos sem recursos, aflitos ou desorientados, recorremos à fé singela: “Deus é soberano, Ele sabe o que faz”.

Calvino (1509-1564) observou com precisão: “Mesmo os santos precisam sentir-se ameaçados por um total colapso das forças humanas, a fim de aprenderem, de suas próprias fraquezas, a depender inteira e unicamente de Deus”.(1)

A dificuldade humana em deixar Deus ser Deus

O coração humano resiste em receber a Deus como Ele Se revela. Desde o Éden, quando Adão e Eva desejaram “ser como Deus” (Gn 3.5), a humanidade insiste em moldar o Criador à sua própria imagem. Paulo descreve esse movimento em Romanos 1: os homens trocam a glória de Deus por ídolos, preferindo adorar a criatura em vez do Criador.

Quando julgamos dominar a realidade, dispensamos Deus; quando não, criamos um “deus” à nossa medida para justificar crenças ou incredulidade. A Teologia Reformada chama isso de depravação total: não apenas fazemos escolhas erradas, mas nossa própria vontade é inclinada contra Deus.

O Antigo Testamento mostra como Israel confundiu o silêncio de Deus com aprovação tácita de seus pecados. O Senhor, porém, os advertiu: “Pensavas que eu era teu igual; mas eu te arguirei e porei tudo à tua vista” (Sl 50.21). Calvino comenta: “Cada um faz de si mesmo um deus e virtualmente se adora, quando atribui a seu próprio poder o que Deus declara pertencer-lhe exclusivamente”.(2)

A soberania como escândalo e consolo

Curiosamente, os homens reconhecem espontaneamente atributos como amor, graça e perdão, mas rejeitam a soberania. Pink (1886-1952) advertiu: “Negar a soberania de Deus é entrar em um caminho que, seguindo até à sua conclusão lógica, leva a manifesto ateísmo” (3)

O tema da soberania esteve no centro da Reforma. Lutero (1483-1546), em sua obra Da escolha do servo(4)confrontou Erasmo (1466-1536) ao afirmar que a vontade humana está cativa e só a soberania divina liberta. Mais tarde, debates sobre predestinação marcaram concílios e denominações.(5)

Enquanto o deísmo moderno concebia um Deus distante, que não intervém, a fé cristã proclama um Deus soberano que governa cada detalhe da história.

A soberania é a doutrina mais repudiada pelo homem natural e, ao mesmo tempo, a mais consoladora para o crente. Jó expressa nossa limitação diante do mistério divino: “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos! Que leve sussurro temos ouvido dele! Mas o trovão do seu poder, quem o entenderá?” (Jó 26.14). Ainda assim, é justamente na confiança na soberania de Deus que encontramos paz em meio às vicissitudes da vida.

O Conhecimento como dom da graça

Nosso conhecimento de Deus é sempre “conhecimento-de-servo”, delimitado pelo próprio Senhor e condicionado pela realidade do pecado humano. É um saber acerca de Deus como Senhor e, ao mesmo tempo, sujeito a Ele.(6)

Como seres finitos, não podemos enxergar o todo da realidade de uma vez; nossa perspectiva é limitada por nossa própria finitude. Conhecer a Deus é iniciativa da graça divina: é fé que nasce da graça. Por isso, não somos padrão de verdade; precisamos validar nosso pensamento na Palavra, que é a verdade (Jo 17.17). O nosso conhecimento nunca é autorreferente com validade própria e por iniciativa nossa.

Somente Deus é soberano, e somente a partir Dele podemos conhecê-Lo. Esse conhecimento nos liberta para compreender a nós mesmos e a realidade ao nosso redor, sustentando-nos inclusive nos momentos de dor, quando a medicina falha, o emprego é perdido ou a morte visita o lar. É a certeza de que Deus reina que consola e fortalece o crente.

Conclusão pastoral

A soberania de Deus não é um conceito abstrato, mas um fundamento para a vida cristã. Nela repousa nosso consolo: saber que o Senhor reina, que nada escapa ao Seu governo e que Suas promessas sustentam nossa esperança.

Uma família que perde um ente querido encontra consolo não em explicações humanas, mas na certeza de que “o Senhor reina” (Sl 93.1). Assim também, o missionário que enfrenta perseguição persevera porque confia que Deus governa até mesmo sobre os corações mais endurecidos.

E, finalmente, é a soberania que garante nosso futuro: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21.5). O governo eterno de Deus culminará na restauração plena.

Deixemos Deus ser Deus, conforme a Sua revelação, e descansemos nos Seus cuidados. A verdadeira paz nasce quando reconhecemos que Ele é soberano e que, em Cristo, somos guardados por esse governo eterno. Amém.


(1) João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995, (2Co 1.8), p. 22.

(2)João Calvino, O Livro dos SalmosSão Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 100.1-3), p. 549. Veja-se também: João Calvino, Instrução na Fé, Goiânia, GO: Logos Editora, 2003, Caps. 1-3, p. 11-14.

(3)AW rosa, Deus é Soberano, Atibaia, SP.: Editora Fiel, 1977, p. 21. Em outro lugar: “Os idólatras do lado de fora da cristandade fazem ‘deuses’ de madeira e de pedra, enquanto os milhões de idólatras que existem dentro da cristandade fabricam um Deus extraído de suas mentes carnais. Na realidade, não passam de ateus, pois não existe alternativa possível senão a de um Deus absolutamente supremo, ou nenhum deus” (A.W. Pink, Os Atributos de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1985, p. 28). Do mesmo modo, Sproul (1939-2017): “Defender a crença num ‘poder do alto’ nebuloso é balançar entre o ateísmo e um cristianismo total com suas exigências pessoais” (R.C. Sproul, Razão para Crer, São Paulo: Mundo Cristão, 1986, p. 48).

(4) A Editora Fiel tem uma versão resumida e adaptada dessa obra: “Nascido Escravo”.

(5) “Duas coisas obrigam à pregação da predestinação. A primeira é a humilhação do nosso orgulho e o reconhecimento da graça de Deus; e a segunda é a natureza da fé Cristã em si mesma.” (Martin Luther, De Servo Arbitrio. In: E. Gordon Rupp; Philip S. Watson, eds. Lutero e Erasmo: Livre Arbítrio e Salvação, Filadélfia: The Westminster Press, 1969 p. 137).

(6)Cf. John M. Quadro, A Doutrina do conhecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 56.

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