A maternidade é um fogo purificador

Anos de treinamento em cirurgia me equiparam com as habilidades e a confiança necessárias para estancar hemorragias maciças, remover vesículas biliares e abrir o tórax em menos de meio minuto.

Essas habilidades não me valeram de nada quando minha filha pequena incendiou um jogo de tabuleiro em nossa casa.

As redes sociais frequentemente retratam a maternidade como uma experiência imaculada e idílica, repleta de passeios por campos floridos, roupas combinando com golas brancas impecáveis ​​​​e o aroma de bolos e doces perfumando o ar. A realidade da maternidade, no entanto, costuma ser muito mais caótica do que as imagens ideais que tanto zelamos. Hematomas e regurgitações são mais frequentes que chás aromáticos e algodão natural. Birras e discussões transformam nossos planos meticulosamente elaborados em ruínas. Nos orgulhamos de nossa paciência até que outra mamadeira molhe o tapete. Nos piores momentos, olhamos para nossos fracassos, para o trabalho duro que fizemos, e imploramos por uma fuga.

Mãe cansada, anime-se. Esses momentos — os mais difíceis, os mais dolorosos — são precisamente quando Deus pode, nas palavras de John Bunyan, realizar sua “obra de ferimento”, conformando você à imagem de seu Filho (Obras de John Bunyan 1:720). A maternidade é um presente e uma bênção. É um privilégio imenso pastorear corações jovens. É também um fogo purificador, que nos molda através de suas provações mais desafiadoras, tornando-nos cada vez mais semelhantes a Cristo.

Longe de ser idílico

Deparei-me com as realidades caóticas da maternidade — e com a feiura dentro de mim — logo no início da minha jornada como mãe. Pouco depois de deixar a prática clínica para educar meus filhos em casa, eu encarava cada manhã com eles como se fosse uma cirurgia no trabalho: metodicamente, minha testa se franzia em concentração enquanto eu organizava todos os momentos como painéis brilhantes em um vitral. Em uma dessas manhãs, acordei com uma dor de cabeça latejante, mas mesmo assim encarei o dia, determinada a aproveitar cada minuto para aprendizado, alegria, união e produtividade.

Então começou.

Primeiro, meu filho de três anos resolveu discutir sobre quase tudo: pentear o cabelo, se vestir, usar colete salva-vidas dentro de casa, usar guardanapo, comer torrada, as meias de tartaruga da irmã, a existência da irmã, comer sopa, não comer sopa, ficar pendurado na janela e falcões-peregrinos.

Então minha filha de um ano entrou na brincadeira. Ela subiu nas cadeiras, rasgou livros e espalhou sua saliva cheia de migalhas de biscoito por todas as superfícies. Ela bateu a cabeça, o pulso, o pé, o ombro e o dedinho do pé seis vezes durante suas acrobacias ilícitas na sala de estar.

Houve gritos. Houve lábios ensanguentados. Houve uma criança em idade pré-escolar fugindo para a neve de meias. Houve essa mesma criança uivando porque seus pés estavam gelados. Depois, houve fumaça saindo de uma caixa de um jogo de tabuleiro depois que minha filha acendeu uma lâmpada halógena no alto de uma prateleira de jogos.

Ao pegar aquela caixa toda queimada e ainda saindo fumaça, tive vontade de desistir e voltar para o meu emprego no hospital, onde as pessoas me ouviam e respeitavam minhas palavras. Queria me refugiar em um lugar onde me sentisse competente, onde o que eu fizesse realmente importasse. Enquanto esses pensamentos me invadiam, meu filho pediu um copo d’água. Com a paciência à flor da pele, reagi de forma desprezível: gritei com ele.

Enquanto seu rosto se contorcia e seus olhos se enchiam de lágrimas, a verdade me atingiu como um trovão: o que importava não eram minhas conquistas em outra época, mas os corações que estavam sob meus cuidados naquele momento (Efésios 6.4). As lágrimas do meu filho eram um espelho diante do meu rosto. Nelas, vi o pecado que eu cultivava a cada gemido de ressentimento. Através delas, o Espírito me confrontou, levando-me ao arrependimento e à graça de Cristo.

Descanso para os cansados

“Os filhos são herança do Senhor” (Salmo 127.3), um presente de Deus para nutrirmos, valorizarmos e pastorearmos (Deuteronômio 6.6-7). Como mães, adoramos nossos filhos, os amamos e ansiamos por nos unir aos nossos maridos na criação deles segundo a doutrina e o ensinamento de Cristo (Efésios 6.4).

Mas às vezes — ou quase sempre — nossos dias parecem deploráveis ​​​​em comparação com o ideal que temos em mente, com as nossas habilidades parentais profundamente deficientes se comparadas às de nosso Pai celestial. Como mulheres imperfeitas cuidando de filhos imperfeitos em um mundo imperfeito, muitas vezes a maternidade nos deixa exaustas, despentiadas e ressentidas. Longas horas frequentemente drenam nossas energias. Se deixamos um emprego para passar os dias em casa com nossos filhos, podemos questionar nosso valor próprio quando fraldas, bisnaguinhas com requeijão e geleia substituem reuniões, salários e promoções. Se conciliamos o trabalho dentro e fora de casa, nossas reservas podem se esgotar enquanto nos dedicamos completamente ao serviço dos filhos.

Em momentos como esses, quando nossos ossos doem e ansiamos por descanso, nossos esforços como mães podem falhar. Elevamos a voz. Ignoramos o apelo de uma criança. Quebramos promessas. A amargura se instala. As queixas brotam de dentro.

Mais uma vez, mãe cansada, anime-se. Em Cristo, Deus é fiel para perdoar tudo o que você confessa (1 João 1.9). Através da cruz, Ele separou seus pecados de você “tão longe quanto o Oriente está do Ocidente” (Salmo 103.12). Enquanto o cansaço pesa sobre seus membros e você caminha de um lado para o outro com uma criança na calada da noite, Ele vê o seu serviço. Ele conhece o seu esgotamento (Hebreus 4.15). Ele a convida para o verdadeiro descanso que vem somente dEle (Mateus 11.28).

E ele pode trabalhar até mesmo durante esses dias longos e árduos para o seu bem e para a glória dele (Romanos 8.28).

Um fogo purificador

Assim como fez com meu acesso de raiva por causa de uma caixa de jogo de tabuleiro incendiada, Deus pode usar cada momento de fragilidade e cada fracasso para nos lembrar que sua graça é suficiente e que seu “poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Coríntios 12.9). Em sua misericórdia, o Deus que nos salva pelo sangue de Cristo pode lavar nossos trapos mais imundos e torná-los brancos como a neve (Isaías 1.18 ; 64.6), usando nossos piores dias como pais para nos moldar à “imagem de seu Filho” (Romanos 8.29). Ele faz grandes coisas com os poucos; faz coisas belas com os imperfeitos. Ele escolhe os menores, os mais humildes, os mais quebrantados como seus servos (1 Samuel 16.10-12 ; Números 12.3 ; 1 Timóteo 1.15). Ele opera para o bem através das maiores calamidades (Gênesis 50.20). Quando seu povo amado se sente quebrantado e esmagado, ele estende a mão através do firmamento e, em amor, faz novas todas as coisas (Apocalipse 21.5).

Quando os dias pesarem sobre você, lembre-se de que a maternidade é um fogo purificador. Ela molda. Ela destrói. Ela reduz a cinzas as falsidades e os artifícios. Embora as chamas ardam, por meio delas Deus queimará a escória pecaminosa que realmente pesa sobre sua alma cansada. Ele a esculpirá à imagem de Cristo. E Ele acenderá em seu coração uma alegria não na obra de suas próprias mãos, mas naquele que um adotou como sua filha amada (Efésios 1.5) — não importa como seus momentos de maternidade se desenvolvam.

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