Aqui, lutamos contra o amor ao dinheiro. Falamos sobre compras excessivas como viver com simplicidade em tempos de guerra e alcançar contentamento financeiroe como desfrutar das dádivas que Deus nos concede. Dentro de todos estes assuntos encontra-se o tema do trabalho – no qual gastamos a maior parte do nosso tempo e pelo qual obtemos nosso sustento financeiro. Aqui está a pergunta de hoje, enviada por um ouvinte chamado Brian.
“Olá, Pastor John! Espero que esteja bem! Ultimamente, tenho refletido sobre alguns versículos de Eclesiastes, particularmente Eclesiastes 2.24, 3.13, 3.22 e 5.19. Esses textos falam repetidamente sobre desfrutar do fruto do nosso trabalho como um presente de Deus para ser apreciado. Mas tenho um pouco de dificuldade em saber exatamente como isso se traduz na vida real.”
“A ideia de que ‘Não há nada melhor para o homem do que comer, beber e desfrutar do fruto do seu trabalho’ (Eclesiastes 2.24) e que é um dom de Deus ‘que todos comam, bebam e desfrutem do fruto de todo o seu trabalho’ (Eclesiastes 3.13) é algo que quero compreender e vivenciar melhor. Como empresário, quero honrar a Deus com negociações justas, honestidade e confiabilidade, e acho que entendo essa parte, mesmo que não a cumpra perfeitamente. Mas não sei como processar meu trabalho quando o termino — à noite e nos fins de semana. Como posso refletir sobre um trabalho bem feito e encontrar alegria nele como um dom de Deus?
Advertências em Eclesiastes
Permitam-me começar com duas precauções que devemos tomar ao ler Eclesiastes, e depois responderei diretamente à última pergunta. A leitura de Eclesiastes exige uma distinção cuidadosa entre, por um lado, a descrição que o autor faz da futilidade da vida sem referência a Deus — frequentemente chamada de “vida debaixo do sol” — e, por outro lado, sua descrição da vida com referência a Deus, que, por assim dizer, extrai da futilidade deste mundo um modo de vida com propósito, que honra a Deus, é generoso para com os outros e traz alguma medida de felicidade neste mundo, enraizada em Deus e não apenas em prazeres terrenos.
A segunda ressalva é que Eclesiastes faz parte do Antigo Testamento, período em que Deus não enfatizou a Grande Comissão da mesma forma que faz no Novo Testamento, quando a igreja existe para fazer discípulos de todos os povos do mundo.
Isso é significativo. Isso tem enormes implicações. O Antigo Testamento era, em geral, uma religião do tipo “venha ver”, não uma religião do tipo “vá e conte” (enquanto o cristianismo é definitivamente uma religião do tipo “vá e conte”), o que significa que a riqueza, a prosperidade, a saúde e o bem-estar cívico de Israel no Antigo Testamento eram, em grande parte, um testemunho da bondade de Deus para com Israel, que as nações podiam vir ver e participar, se acreditassem, mas que os missionários não levavam aos povos vizinhos no Antigo Testamento.
Diferentemente do Israel do Antigo Testamento, o cristianismo não possui um centro geográfico, um templo material, uma identidade nacional, um exército ou um governante terreno. Somos um povo exilado, disperso entre as nações. Não estamos construindo um lar nesta terra, mas somos peregrinos vivendo com simplicidade, maximizando nosso impacto em prol dos povos que não têm o testemunho do Evangelho. Somos uma religião de “ir e anunciar”, e fazemos o que fazemos para maximizar o cumprimento desse propósito.
E menciono isso porque significa que não vamos simplesmente traçar uma linha direta da concepção do Antigo Testamento sobre a boa vida para a concepção cristã da boa vida. Elas nem sempre são iguais.
O trabalho como uma bênção
Assim, com essas ressalvas em mente, permitam-me afirmar Eclesiastes 2.24-26. Diz que devemos “comer, beber e desfrutar do fruto do nosso trabalho. Também percebi que isso vem da mão de Deus, pois sem Ele, quem pode comer ou desfrutar? Pois ao que lhe agrada, Deus concede sabedoria, conhecimento e alegria”. E afirmo Eclesiastes 3.12-13: Devemos “alegrar-nos e praticar o bem enquanto vivermos; e que cada um coma, beba e desfrute do fruto de todo o seu trabalho; isso é dom de Deus para o homem”. Mais uma coisa, Eclesiastes 5.19: que se “Deus nos deu riquezas, bens e poder”, devemos usá-los para desfrutar dele. Devemos “aceitar a nossa sorte e nos alegrar no nosso trabalho; isso é dom de Deus”.
O denominador comum em cada um desses textos é que o trabalho de nossas mãos ou mente é uma dádiva de Deus, e que devemos nos alegrar com ele e ser gratos por ele. E um desses textos, Eclesiastes 3.12, deixa explícito que a manifestação dessa alegria deve ser fazer o bem aos outros. Em outras palavras, o trabalho de nossas mãos não se destina apenas à nossa própria prosperidade, mas também ao bem dos outros.
Eis aqui a versão do Novo Testamento dessa exortação e celebração da bondade de Deus.
¹⁷ Exorta aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento;
¹⁸ que pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir;
¹⁹ que acumulem para si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida.
(1 Timóteo 6.17-19)
É possível perceber a mudança de ênfase em relação a Eclesiastes. Paulo direciona nossa atenção para a eternidade, não apenas para esta terra. Ele adverte sobre os perigos do orgulho pelas riquezas. Ele implora por confiança em Deus, não no dinheiro. Ele dá uma ênfase quádrupla: Faça o bem, faça o bem, faça o bem. Não há maneiras suficientes de fazer isso: “Faça o bem”, “seja rico em boas obras”, “seja generoso” e “esteja pronto para compartilhar”. Isso é incrível. A mensagem é inegável.
Este é o “ir e contar” (ou “mostrar e contar”) às nações. Vão às nações. Este é o cristianismo do Novo Testamento, maximizar nossas vidas e nossos recursos, especialmente para o bem, especialmente o bem eterno — agarrar-se à vida, que é a própria vida. E então, ele se alinha firmemente com Eclesiastes ao dizer que Deus nos deu o que temos para nosso deleite. Você não precisa se envergonhar de ser um empresário bem-sucedido ou de ter comida na mesa.
Refletindo sobre um bom trabalho
Então, com esse contexto, permitam-me mencionar alguns pontos que tentam responder à pergunta essencial de Brian. Ou seja, como é, depois de um bom dia ou de uma boa década de trabalho, dar um passo para trás e refletir sobre isso?
Três lembretes
Eis o primeiro ponto. Ao refletir sobre seu trabalho, agradeça por cada respiração que você deu, por toda a inteligência que aplicou, por toda a força que exerceu, pois tudo foi um dom de Deus (a Bíblia diz isso em Eclesiastes e em vários outros trechos do Novo Testamento), para que seu trabalho se torne uma ocasião de adoração feliz e agradecida ao pensar nele.
Em segundo lugar, ao refletir sobre o seu trabalho, reconheça não apenas que as causas da sua excelência vêm de Deus, mas também que o seu fruto, no futuro, dependerá da graça decisiva de Deus. “Eu plantei, Apolo regou, mas Deus deu o crescimento” (1 Coríntios 3.6). “O cavalo é preparado para o dia da batalha, mas a vitória pertence ao Senhor” (Provérbios 21.31). “Deus fez abundar em vocês toda a graça, para que, tendo sempre, em tudo, ampla suficiência, vocês transbordem em toda boa obra” (2 Coríntios 9.8). Portanto, maravilhe-se com a graça de Deus no seu trabalho, tanto nas suas causas quanto nos seus frutos.
Em terceiro lugar, não importa o quão próspero ou excelente seja o seu trabalho, sempre reconheça que pode haver pontos cegos em que você poderia melhorá-lo. Ore sempre a Deus e esteja aberto a outras pessoas sobre como seu trabalho pode ser ainda mais benéfico para os outros e uma glória para Deus.
Cinco perguntas
Número quatro, responda à pergunta honestamente: Meu trabalho se tornou meu deus, ou é o próprio Deus aquele a quem amo acima de tudo, de modo que, se meu trabalho me fosse tirado, eu ainda valorizaria Cristo acima de tudo como totalmente suficiente em minha vida (Filipenses 3.8)?
Número cinco: meu coração e minha mente estão voltados para fazer o máximo de bem possível aos outros — especialmente o bem eterno, mas também o bem deste mundo?
Número seis: meu trabalho se encaixa na totalidade da minha família, comunidade e vida de adoração de uma forma que contribui para o impacto geral da minha vida como um indicador da grandeza de Cristo?
Número sete: meu estilo de vida é moldado por Cristo ou pelas expectativas mundanas de alguém na minha posição?
E, finalmente, número oito, reconheço minha finitude, falibilidade e pecaminosidade, e confio no Evangelho para o perdão de minhas falhas pessoais e profissionais (Romanos 3.23-24), de modo que eu possa realmente me alegrar em meu trabalho sem me tornar presunçoso?
Conheça os livros de John Piper pela Editora Fiel – clique aqui.
Veja mais episódios do John Piper Responde – clique aqui!





