Sejam bem-vindos a mais um episódio do podcast John Piper Responde! Hoje vamos falar sobre como o cristão deve lidar com a justiça retributiva por meio de uma pergunta sobre se devemos nos alegrar quando Deus destrói nossos inimigos, uma pergunta de uma ouvinte chamada Liz. “Minha pergunta é esta. Devemos celebrar a morte de nossos inimigos?” Em Êxodo 15, os israelitas cantam uma canção de adoração a Deus depois que ele os faz atravessar o Mar Vermelho e permite que escapem dos egípcios. A canção começa louvando o caráter de Deus e magnificando seu poder e força (Êxodo 15.1–3), mas termina celebrando que os egípcios foram “lançados no mar” (Êxodo 15.4–10 NVI).
Ao mesmo tempo, somos chamados a ter compaixão pelos perdidos que estão longe de Deus (Mateus 9.36–38) e a desejar que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao conhecimento dele (2 Pedro 3.9). Por favor, ajude-me a entender a justiça e a compaixão de Deus, e que postura e atitude devemos ter em relação aos nossos inimigos, e como podemos demonstrar misericórdia para com eles, ao mesmo tempo em que louvamos a Deus por Sua justiça quando eles recebem o que merecem: a separação eterna dele.
Existem dois grupos de textos na Bíblia sobre nossos inimigos. Um grupo descreve o julgamento justo de Deus sobre eles e a alegria do povo de Deus nesse julgamento. E o outro grupo descreve o que Deus exige de nós nesta era decaída: amar nossos inimigos, abençoar aqueles que nos amaldiçoam, fazer o bem àqueles que nos odeiam e não nos alegrarmos quando a calamidade sobrevém ao nosso inimigo.
Celebrando o Julgamento de Deus
Por exemplo, alguns exemplos em cada um desses grupos: “Moisés e os filhos de Israel cantaram… ao Senhor… ‘Cantarei ao Senhor, porque triunfou gloriosamente; lançou no mar o cavalo e o seu cavaleiro’” (Êxodo 15.1). Portanto, triunfo sobre o exército egípcio. E o livro de Apocalipse descreve a celebração do céu pela destruição de seus inimigos por Deus nos últimos tempos:
“Depois destas coisas, ouvi no céu uma como grande voz de numerosa multidão, dizendo: Aleluia! A salvação, e a glória, e o poder são do nosso Deus, porquanto verdadeiros e justos são os seus juízos, pois julgou a grande meretriz que corrompia a terra com a sua prostituição e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos.” (Apocalipse 19.1–2)
Ou Apocalipse 18.20: “Alegrai-vos sobre ela, ó céu, e vós, santos, apóstolos e profetas, porque Deus vos julgou contra ela” — ou seja, contra a grande prostituta, Roma. E agora mesmo, enquanto fazemos esta gravação, as almas dos mártires sob o altar no céu clamam: “Ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, até quando não julgarás e vingarás o nosso sangue dos que habitam na terra?” (Apocalipse 6.10).
Então, esse é um conjunto de textos: a celebração da justiça de Deus ao trazer julgamento sobre seus inimigos.
Refletindo a compaixão de Deus
Então, este outro grupo diz assim: “Não te alegres quando o teu inimigo cair, e não se alegre o teu coração quando ele tropeçar, para que o Senhor não veja isso e fique desgostoso, e desvie dele a sua ira.” Isso é Provérbios 24.17–18. Em outras palavras, esta não é uma questão de uma coisa ser desculpada no Antigo Testamento e proibida no Novo Testamento — como, a vingança é aceitável contra o seu adversário no Antigo Testamento, mas não é aceitável no Novo Testamento. Não, estas são citações do Antigo Testamento agora. “Aquele que se alegra com a calamidade não ficará impune” (Provérbios 17.5). Ou Jó diz em Jó 31.29: “Se eu me alegrei com a ruína daquele que me odiava, ou exultei quando o mal o alcançou, (eu seria culpado).”
E então você tem o Novo Testamento. Todos nós conhecemos as palavras de Jesus: “amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam.” (Lucas 6.27–28). E esse ensinamento se estende por todo o Novo Testamento. 1 Tessalonicenses 5.15: “Cuidem para que ninguém retribua a ninguém mal por mal; mas procurem sempre fazer o bem uns aos outros e a todos.” A mesma coisa em 1 Pedro 3.9 e Romanos 12.17. E talvez a passagem mais significativa sobre não se vingar seja Romanos 12.19–20: “Nunca se vinguem, mas deixem isso para a ira de Deus, pois está escrito: ‘A vingança é minha; eu retribuirei, diz o Senhor.’ Ao contrário, ‘se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe algo para beber.’”
A questão, então, é esta: como levaremos a sério esses dois conjuntos de ensinamentos bíblicos e viveremos suas implicações em nossas vidas? Há várias respostas para essa pergunta, e vou dar apenas uma. Acho que é a mais importante, pelo menos na minha opinião.
Fazendo a Distinção
Há uma diferença entre regozijar-se com a ação justa de Deus ao lidar com os seus e os nossos inimigos e um prazer autoexaltado ao ver nossos adversários pessoais sofrerem. Há uma diferença. Charles Bridges, que escreveu um bom comentário sobre Provérbios, comenta assim sobre o regozijo de Israel pela destruição dos exércitos egípcios. Ele diz: “Quão diferente é esta sublime simpatia pelo triunfo da Igreja do que a alegria maligna da vingança privada!”
De fato, concordo com isso, mas acrescentaria que essa não é uma distinção fácil de manter na experiência. Nossa alegria na vindicação da glória e da justiça de Deus nem sempre é fácil de distinguir de nossa alegria na calamidade pessoal de nossos adversários. E a razão pela qual não é fácil é porque nosso adversário realmente acaba sofrendo calamidade no justo julgamento de Deus. Portanto, nossa alegria na vitória de Deus é, de certa forma, alegria na derrota de nossos adversários.
Quando os santos no céu clamam: “Aleluia! A salvação, a glória e o poder pertencem ao nosso Deus” (Apocalipse 19.1), eles sabem que isso inclui a destruição total da grande prostituta, de sua cidade e de todos os que nela odiavam os cristãos. Mas o fato de acharmos difícil fazer essa distinção em nossas mentes e corações, a distinção entre a alegria na justa vindicação de Deus e a alegria em nossa vingança pessoal pelo sofrimento de nossos adversários — o fato de isso ser difícil não significa que a distinção não exista. Ela existe.
Devemos nos alegrar na cruz?
Então, deixe-me tentar uma analogia. (Isso me ajudou enquanto eu refletia sobre isso ontem.) Deixe-me tentar uma analogia e ver se ela ajuda você como me ajuda.
Considere a crucificação de Jesus. Por um lado, a crucificação de Jesus foi a vindicação da justiça de Deus quanto a ter deixado impunes, por algum tempo, os pecados cometidos, pois mostrou que Deus não varre o pecado para debaixo do tapete e não ignora a difamação de sua glória. Então, a cruz é uma demonstração gloriosa da justiça e misericórdia de Deus. Por outro lado, é uma experiência absolutamente revoltante de sofrimento extraordinário, com pregos sendo cravados em mãos e pés, a perfuração no lado, coroa de espinhos, tapas no rosto, cuspidas no rosto, Jesus suportando uma agonia impossível, e o peso espiritual do mundo fazendo Jesus clamar: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” (Mateus 27.46). Então, física e espiritualmente, é tão horrível quanto possível.
Minha pergunta é: devemos nos alegrar com a morte de Jesus? E certamente a resposta é sim quando vemos a cruz de um ângulo e não quando a vemos de outro. Como o mais glorioso ato de amor do Pai e do Filho e uma perfeita vindicação da justiça de Deus, a cruz deveria nos trazer a maior alegria. De fato, ela traz. Todos os domingos na minha igreja, estamos na ponta dos pés louvando a Deus pela cruz. Todos os domingos, é isso que fazemos. Mas como um ato de tortura e sofrimento considerado em si mesmo, certamente deveríamos chorar por Jesus e por nós mesmos.
Portanto, penso que, de forma semelhante, devemos nos alegrar com os julgamentos de Deus, incluindo a justiça do inferno. E quando contemplamos a miséria dos perdidos, considerada apenas como sofrimento, devemos chorar, orar e nos esforçar para salvar o máximo de pessoas possível.
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