Nota do editor: Este é o oitavo artigo da série de Hermisten Maia – O Ser, as pessoas e as coisas: Um diálogo entre Teologia e Filosofia. Este artigo nos ensina que conhecer a Deus é uma experiência que ultrapassa o intelecto e nasce da graça reveladora do próprio Deus. A fé e o conhecimento se entrelaçam num movimento espiritual em que a revelação conduz à transformação e à comunhão. Nosso saber é limitado, humilde e dependente da Palavra — pois a realidade divina precede e fundamenta toda percepção humana. O verdadeiro conhecimento de Deus não é conquista, mas dom que nos chama a viver com reverência, gratidão e santidade em Cristo.
Conhecer a Deus é uma jornada que transcende o intelecto. É um caminho marcado pela graça, pela revelação e pela humildade. A tentativa humana de compreender o Eterno, por mais nobre que seja, esbarra em nossa finitude. No entanto, é justamente nesse limite que a majestade divina se manifesta: Deus, glorioso e soberano, se dá a conhecer. E o faz não por mérito humano, mas por iniciativa graciosa. O nosso conhecimento é um ato de fé; e esta é procedente da graça.
A Revelação: Iniciativa Divina
A revelação de Deus é sempre um ato de graça. Não é fruto da especulação filosófica nem da curiosidade religiosa. Deus se revela porque deseja ser conhecido. Como afirmou Calvino: “Tudo quanto diz respeito ao genuíno conhecimento de Deus constitui um dom do Espírito Santo.”(1)
Esse conhecimento inseparável da revelação divina, não é apenas informativo, mas transformador. Ele nos conduz à comunhão, em alegre obediência, amor e profunda gratidão.(2)Conhecer a Deus é entrar em relação com Ele ˗˗ uma relação viva, pessoal e santificadora.
Fé e Conhecimento: Uma Dinâmica Espiritual
A fé é precedida pelo conhecimento, e o conhecimento, por graça, gera fé. Esses dois elementos são inseparáveis. O saber que vem da revelação nos conduz ao amor por Deus, e esse amor nos impele a conhecê-lo mais profundamente. Há uma dinâmica espiritual que se aprofunda: conhecer, crer, amar, buscar ˗ e novamente conhecer.
A Singularidade do Conhecimento de Deus
Conhecer a Deus é um saber singular. Diferente de qualquer outro conhecimento, porque Deus é único em sua essência, existência e revelação. Podemos ter um conhecimento especial sobre coisas comuns, mas conhecer a Deus é sempre algo extraordinário. Sua majestade exclui qualquer banalidade. Banalidade e santidade são termos mutuamente excludentes quando falamos de Deus.
Por isso, qualquer analogia que tentemos aplicar a Ele será sempre limitada, pobre e temerária. Deus, em sua natureza gloriosa, manifesta beleza variada e harmoniosa na criação, mas permanece incomparável.
Conhecimento de Servo: Humildade Epistemológica
Nosso conhecimento de Deus é um “conhecimento-de-servo”, delimitado pelo próprio Senhor e condicionado pela nossa natureza caída. Jamais é autorreferente ou originado por iniciativa exclusivamente humana. Não somos, nem jamais seremos, o padrão da verdade. Esse pertence exclusivamente a Deus. Os nossos pensamentos e as nossas supostas experiências concretas, por mais nobres que sejam, não têm poder autorreferentes, se constituindo em fundamento de nossas decisões e ensino.(3) Antes, precisam sempre ser validados pela Palavra, que é a verdade (Jo 17.17).
Somos criaturas, e continuaremos sendo. Conhecer a Deus não nos diviniza, não nos torna infalíveis. Continuamos pecadores, sujeitos a quedas. (4) No entanto, para quem conheceu a Deus genuinamente, essas quedas são parciais e temporárias. Jamais totais ou definitivas. O nosso Pastor sempre nos traz de volta.
Ontologia e Epistemologia: A Realidade que Precede a Percepção
A realidade é sempre mais complexa do que nossa percepção. A ontologia ˗ aquilo que é ˗˗ precede e fundamenta nossa epistemologia ˗˗ aquilo que podemos conhecer. As coisas são o que são, independentemente de nossa apreensão. Assim como o nome não determina a essência da coisa, nossa percepção, com seus erros e acertos, não estatui por si só a natureza da realidade.
Como observam Geisler (1932-1919) e Bocchino, nossa perspectiva é inevitavelmente limitada pela própria finitude.(5) Essa limitação, longe de ser um defeito, nos convida à humildade epistemológica. A realidade transcende nossa percepção. A ontologia precede e fundamenta nossa capacidade de conhecer, sem estar condicionada por ela.
Realidade e Experiência: Aprendizado Contínuo
A realidade possibilita a experiência e o aprendizado, mas a experiência não determina a realidade. Ela pode ˗˗ e deve ˗˗ nos ajudar a enxergar a realidade de forma mais compatível com sua natureza. Isso nos conduz a novas experiências e novos aprendizados. O processo é contínuo, mesmo que nem sempre tenhamos consciência dele. A realidade vivenciada proporciona ensino e renovação. Quem tem olhos e ouvidos, veja, ouça e aprenda.
Pensar à Luz da Palavra
Só pensamos verdadeiramente quando pensamos à luz da Palavra. Por isso, conhecer a Deus é algo singular, sem paralelo. Somente Deus é soberano, e somente a partir dele podemos conhecê-lo. E tudo isso por meio de Jesus Cristo, o Deus encarnado,(6) a revelação pessoal de Deus.(7) Nele, a verdade se fez carne, e por Ele somos conduzidos ao conhecimento que salva, transforma e santifica.
Algumas Considerações
Ao concluir esta reflexão, reafirmo que o conhecimento de Deus é mais do que um exercício teológico ˗˗ é um chamado à vida. Somos convidados a pensar com reverência, a viver com gratidão e a ensinar com humildade. A revelação que nos alcança em Cristo não apenas nos informa, mas nos transforma.
Que cada pensamento seja moldado pela Palavra, cada ação inspirada pelo Espírito, e cada queda restaurada pelo Pastor que não nos abandona.
Conhecer a Deus é viver. E viver para Ele é a razão de tudo. Que o Espírito Santo nos capacite a tornar essa verdade visível em nosso pensar, agir e ser. Amém.
(1) João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 12.3), p. 373.
(2) “O grande fim de toda revelação é inspirar um louvor humilde e reverente a Deus” (John Stott, Salmos Favoritos, São Paulo: Abba Press, 1997, p. 24).
(3) Veja-se: Francisco L. Schalkwijk, Meditações de um peregrino, São Paulo: Cultura Cristã, 2014, p. 127.
(4) “A verdade mais básica da Teologia é que há um Deus e Ele não é você. (…) Portanto, não fazemos Teologia como deuses ou como seres iguais a Deus, mas como criaturas. Essa verdade tem duas consequências, ambas as quais nos chamam à humildade” (Joel R. Beeke; Paul M. Smalley, Teologia Sistemática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2020, v. 1, p. 64).
(5)“Visto que somos seres finitos e não podemos enxergar o todo da realidade de uma vez, nossa perspectiva da realidade é necessariamente limitada por nossa finitude.” (Norman Geisler; Peter Bocchino, Fundamentos Inabaláveis: resposta aos maiores questionamentos contemporâneos sobre a fé cristã, São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 50). Da mesma maneira, veja-se: Vern S. Poythress, Redimindo a filosofia: uma abordagem teocêntrica às grandes questões, Brasília, DF.: Monergismo, 2019, p. 74ss. Calvino comenta a necessidade da revelação de Deus em Cristo. Argumenta: “Porque, visto que Deus é incompreensível, a fé poderia jamais alcançá-lo, a menos que ela tenha uma consideração imediata por Cristo. Além disso, há duas razões por que a fé poderia estar não em Deus, a não ser que Cristo interviesse como Mediador: primeiro, a grandeza da glória divina deve ser levada em conta e, ao mesmo tempo, a pequenez de nossa capacidade. Nossa acuidade sem dúvida está muito longe de ser capaz de subir tão alto a ponto de compreender a Deus. Daí, todo conhecimento de Deus sem Cristo é um vasto abismo que deglute imediatamente todos nossos pensamentos” (John Calvin, Comentários de Calvino, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (reimpresso), v. 22, (1Pe 1.21), p. 53).
(6) “Toda nossa luz e conhecimento consistem (…) em conhecer a Deus na pessoa de seu Filho unigênito. Com isso, digo eu, é que devemos nos contentar” (João Calvino, Sermões em EfésiosBrasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 146-147).
(7) Vejam-se: Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 25-26); Emil Brunner, DogmáticaSão Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 167.





