Hoje vamos falar sobre os chamados “filhos de quatro patas”. A pergunta é de um rapaz chamado Samuel, de New Haven, Connecticut: “Pastor John, o senhor parece ser um homem que ama cachorros, e eu também gosto! O que o senhor acha desta sociedade em que vivemos, na qual mulheres solteiras com instinto maternal tratam cada vez mais cães e outros animais de estimação como filhos ou substitutos de filhos? Ou, especialmente, por casais que poderiam ter filhos, mas que, em vez disso, optam por gastar seu dinheiro mimando esses animais com roupas desnecessárias e comida cara, viajando em jatos particulares, usando recursos que sustentariam facilmente uma criança e jogando tudo aos cachorros, como Jesus diz em Mateus 15.26. Tenho certeza de que o senhor já viu isso. Qual a sua opinião sobre isso?”
Quando vi essa pergunta, pensei: “Quando eu morrer, alguém vai dizer: ‘O Piper não só desperdiçou tempo e dinheiro com um cachorro, como também fez todo mundo perder tempo respondendo perguntas sobre se você deveria ter um cachorro.’” Quem mais se colocaria como alvo de piadas por causa de cachorros, gatos, peixes e tartarugas de estimação? Então, vamos lá.
Se a sua cultura for suficientemente pobre, você come cachorros — sem vergonha nenhuma. Eu certamente comeria um cachorro antes de deixar meus filhos morrerem de fome. Se a sua cultura for suficientemente rica, você mata outros animais, como peixes e galinhas, e alimenta seus cachorros, e depois os traz para dentro de casa e escova seus pelos. Claramente, a forma como nos relacionamos com os animais, seja como animais de estimação ou como alimento, é determinada principalmente pela cultura.
Companheirismo Bíblico
Então, vamos perguntar quais fatores bíblicos podem moldar a atitude de uma cultura em relação aos animais (ou animais de estimação em particular). E a primeira coisa que eu gostaria de destacar é Gênesis 2.
Então o Senhor Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só; farei para ele uma auxiliadora que lhe seja idônea.” (Aliás, é daí que vem o complementarismo, dessa palavra: “auxiliadora que lhe seja idônea”.) O Senhor Deus havia formado da terra todos os animais do campo e todas as aves do céu e os trouxe ao homem para ver como ele os chamaria. E tudo o que o homem chamou a cada ser vivente, esse foi o seu nome. Assim, o homem deu nomes a todos os animais domésticos, às aves do céu e a todos os animais do campo. Mas para Adão não se achava uma auxiliadora que lhe fosse adequada (Gênesis 2.18-20).
O ponto principal desse parágrafo é que, quando Deus criou todos os animais, não os criou como parceiros ideais para o ser humano — esse é o ponto crucial. “Para Adão não se achou uma auxiliadora que lhe fosse idônea” (Gênesis 2.20). Os animais não foram criados por Deus para suprir o anseio inato por companhia, e isso é expresso claramente nas palavras: “Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2.18). Esse problema não é resolvido pelos animais, conforme o plano de Deus.
Isso não significa que você não possa desfrutar da companhia de um animal. Significa que, quando essa companhia começa a funcionar como a companhia de um ser humano, ela está indo contra o plano de Deus. A Bíblia considera o sexo com um animal uma perversão (Levítico 18.23), e Jesus teve palavras muito duras para aqueles que tinham mais compaixão por um animal do que por um ser humano com deficiência — ou, eu acrescentaria, por um ser humano não nascido (Mateus 12.10-12).
Respeito pela vida
O próximo texto que eu citaria é Provérbios 12.10: “O justo atenta para a vida dos seus animais, mas o coração dos perversos é cruel”. Em outras palavras, embora os animais não sejam humanos e não devam ser tratados como tal, a forma como os tratamos diz algo sobre a nossa humanidade. Aliás, diz algo sobre sermos justos e não ímpios.
Ora, o texto, é claro, não está falando sobre animais de estimação, mas certamente é relevante para a questão de você chutar um cachorro sarnento para a sarjeta ou sentir certa compaixão e tentar aliviar sua dor. E penso que é possível perceber com bastante clareza que não há uma distância tão grande entre essa compaixão bíblica e o ato de levar o cachorro para casa, apenas para descobrir, depois, que aquele gesto de misericórdia se transformou em dez anos de cuidado, afeto e amizade entre o homem e o animal.
O terceiro texto ao qual me referiria é 2 Samuel 12. Lembre-se, o profeta Natã acusa Davi de adultério e assassinato contando esta pequena parábola:
Tinha o rico ovelhas e gado em grande número; mas o pobre não tinha coisa nenhuma, senão uma cordeirinha que comprara e criara, e que em sua casa crescera, junto com seus filhos; comia do seu bocado e do seu copo bebia; dormia nos seus braços, e a tinha como filha. (2 Samuel 12.2-3)
Agora, seria muito estranho Nathan usar essa pequena parábola se tal coisa fosse repugnante para Davi ou se tal coisa nunca tivesse acontecido. Em outras palavras, evidentemente, acontecia de vez em quando que uma família se apegava a um dos cordeirinhos do rebanho, que então crescia e se tornava um animal de estimação.
Beleza e Estranheza
O quarto texto (ou grupo de textos) ao qual me refiro são as dezenas e dezenas de textos que mencionam mais de 75 tipos diferentes de animais na Bíblia, a maioria dos quais não tem nenhum valor comercial. Eles simplesmente estão lá na natureza, e o principal uso que Deus lhes faz não é como eles funcionam perfeitamente para manter o ecossistema em equilíbrio (embora essa também seja a Sua sabedoria), mas como eles proporcionam aos humanos oportunidades de ver na criação de Deus coisas como força, diligência, beleza, ordem, perseverança, liberdade, habilidade, humor (como o avestruz), destemor, equilíbrio, instinto materno, sujeira, repulsa, inconstância, astúcia, sutileza, imensidão, insignificância (pardais que simplesmente caem no chão no meio da floresta), paz, sabedoria, engano, ternura, humildade, magnificência e assim por diante.
Assim como as estrelas, as árvores, as montanhas, os lagos e as flores, os animais mostram que Deus se dedica à beleza e à singularidade, não apenas à funcionalidade. Ele deseja que toda a criação, incluindo os animais, declare a glória de Deus — sua sabedoria, seu poder, sua beleza, sua maravilha.
E quando perguntamos para que servem os animais, não podemos simplesmente responder: “Para alimentação, para vestuário, para transporte, para guerra”. Devemos também responder: “Eles devem ser admirados, temidos, evitados, agarrados e imitados”. “Vai ter com a formiga, ó preguiçoso; observa os seus caminhos e sê sábio” (Provérbios 6.6). Eles devem inspirar em nós respostas de adoração a Deus.
Sabedoria para Animais de Estimação
Então, aqui estão algumas das perguntas que acho que devemos fazer para testar se estamos respondendo aos animais de forma bíblica e sábia, sabendo que somos moldados pela nossa cultura:
- Será que esse animal nos aponta para Deus e nos ajuda a amá-Lo mais, ou nos distrai de Deus e o substitui?
- Será que esse animal desperta em nós impulsos virtuosos ou instiga impulsos injustos? Será que tratamos as pessoas melhor por causa desse animal?
- Será que nossa relação com esse animal está de acordo com a ordem da criação de Deus e a confirma, ou a distorce? Será que o animal está começando a suprir necessidades que somente um ser humano deveria suprir?
- Será que o cuidado com esse animal está consumindo recursos e tempo que deveriam ser usados para ajudar outras pessoas?
Agora, estou tentando ser cuidadoso com essa última pergunta porque sei que existem pessoas que não têm animais de estimação e são mesquinhas, não sendo generosas com os outros, e existem pessoas que têm animais de estimação e são extremamente generosas com os outros. Abrir mão de seus animais de estimação não as tornaria mais generosas com os outros. Então, estou perguntando: “O animal de estimação está impedindo a generosidade para com os outros?”
Pronto, acho que consegui responder. Alguém vai dizer: “Piper, você pensa demais” (é o que minha esposa diz), ao que eu respondo: “Então pare de fazer essas perguntas, adote um cachorro e ao mesmo tempo seja muito mais generoso com as outras pessoas do que você é agora.”
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