Nota do editor: Este é o sétimo artigo da série de Hermisten Maia – O Ser, as pessoas e as coisas: Um diálogo entre Teologia e Filosofia. Este artigo nos ensina que a teologia cristã reconhece que todo conhecimento verdadeiro de Deus é dom da revelação divina, que não apenas informa, mas transforma. A Escritura apresenta Deus não como uma força impessoal ou distante, mas como o Senhor infinito e pessoal, que se dá a conhecer em Cristo. Essa revelação confronta a idolatria da autonomia humana, fundamenta a realidade e conduz o homem do saber especulativo à adoração reverente. Sem revelação, não haveria teísmo, ateísmo ou sentido para a vida.
As Escrituras evidenciam o valor metafísico da realidade, contudo, não se limitam a isso, por mais importante que seja e, de fato é. Elas tratam dessa questão em termos ontológicos, normativos e existenciais.
As Escrituras jamais apresentam Deus de maneira impessoal, abstrata ou trivial. Ao contrário, revelam-no como o Deus infinito-pessoal, que se dá a conhecer e se relaciona de forma significativa e misericordiosa com os seus. A revelação do nome divino, por exemplo, não é um mero dado informativo, mas um meio gracioso pelo qual Deus estabelece um canal relacional, permitindo que o ser humano o invoque e se aproxime dele com reverência e confiança.(1)
A Bíblia reconhece e afirma o valor metafísico da realidade, mas não se limita a essa dimensão. Ela aborda a existência humana em termos ontológicos (quem é Deus), normativos (como devemos viver segundo sua vontade) e existenciais (como experimentamos essa relação no cotidiano).
A metafísica bíblica está profundamente entrelaçada com a Lei absoluta de Deus e com as implicações práticas de sua soberania sobre a existência humana. Por essa razão, grande parte das Escrituras adota a forma de narrativa histórica, demonstrando como tais princípios se concretizam na jornada do povo de Deus − seja em atos de obediência, seja em momentos de rebeldia − ao longo do tempo e dentro das realidades do mundo.
O Deus revelado nas Escrituras não é produto da imaginação humana, moldado por desejos, vícios ou projeções subjetivas.(2) Tal concepção, inevitavelmente, conduz da idolatria ao ateísmo.(3) De fato, o ateísmo pode ser compreendido como uma forma refinada de idolatria, na qual o homem passa a adorar a criatura − especialmente sua própria mente − em lugar do Criador (Rm 1.25).(4)
Substituir o Deus das Escrituras por construções imaginárias, por mais sofisticadas que sejam, é uma ilusão teológica. Essa substituição representa a essência do humanismo autônomo, que considera de forma teórica e prática o homem como e medida de toda a realidade.(5) Nesse paradigma, Deus é subjetivamente destronado, e o ser humano assume o centro da realidade, perdendo-se em um universo sem referências metafísicas transcendentais.
A Idolatria da Autonomia e o Eclipse de Deus
A idolatria permeia o coração humano sedento por autonomia. Ao exilar Deus − seja ignorando-o, relativizando-o ou “matando-o” (6) − o ser humano passa a viver exclusivamente de estatísticas, dados e projeções. O único referencial torna-se ele mesmo. Não há valores acima do indivíduo; não há transcendência que o confronte ou redima.(7) Nesse cenário, o homem se torna a medida de todas as coisas, e a realidade é reduzida ao que pode ser quantificado ou controlado.
O antropocentrismo, em seus devaneios centrífugos e centrípetos, é uma forma sofisticada de idolatria, carregando em seu ventre o feto do ateísmo. A teologia, quando desconectada da revelação divina, corre o risco de se tornar mera antropologia. Nesse sentido, surgem os chamados “teólogos ateus”, que, ao deslocarem o foco da teologia para o homem, transformam o discurso sobre Deus em uma análise da experiência humana, esvaziando o conteúdo revelacional e transcendental da fé cristã.(8)
Frame comenta com precisão:
O argumento bíblico a ser mencionado aqui é que ninguém é realmente ateu, no sentido mais sério desse termo. Quando as pessoas se afastam da adoração ao Deus verdadeiro, elas não rejeitam o absoluto em geral. Antes, em vez do verdadeiro Deus, eles adoram ídolos, como Paulo ensina em Romanos 1: 18–32. A grande divisão na humanidade não é que alguns adorem um deus e outros não. Pelo contrário, é entre aqueles que adoram o Deus verdadeiro e aqueles que adoram falsos deuses, ídolos. A adoração falsa pode não envolver ritos ou cerimônias, mas sempre envolve o reconhecimento da asseidade, honrando alguns que não dependem de mais nada.(9)
Deus, no entanto, não se deixa invadir pela razão humana, nem mesmo pela fé autônoma. Ele se dá a conhecer livremente, fidedignamente e explicitamente. Deus se revela como Senhor − e como bem pontua Karl Barth, “Senhorio significa liberdade.”(10)
Conhecer a Deus é um privilégio da graça, sempre iniciado pelo Deus Trino (Mt 11.27; 1Co 12.3). Ele nos conhece profundamente, mais do que nós mesmos, e nada do que lhe dizemos é inusitado. Só o conhecemos à medida que Ele se revela e fala de si mesmo (Sl 139.1-4; 33.13-15; Jo 1.47-48; 2.25).
Por isso, qualquer tentativa de “editar” Deus segundo os gostos pessoais, os cânones contemporâneos apelidados de “politicamente corretos”, ou mesmo segundo uma “teologia pessoal” subjetiva, redundará inevitavelmente em idolatria. O ídolo criado torna-se perfeitamente manipulável, servindo como medida e padrão avaliativo de Deus e de sua revelação − uma inversão que desfigura a verdade e corrompe a fé.
Naturalismo, deísmo e panteísmo, embora distintos em suas formulações, são todos declarações teológicas. A questão fundamental não é se temos uma teologia, mas se ela é verdadeira ou falsa.(11) Sem Deus, a vida não apenas carece de sentido − ela, de fato, não teria sentido.
A ausência de Deus não é apenas uma lacuna existencial, mas um colapso ontológico. É na revelação do Deus vivo que encontramos não apenas respostas, mas o próprio fundamento da realidade.
Recorro a Nash (1936-2006):
Os seres humanos nunca são neutros em relação a Deus. Ou adoramos a Deus como Criador e Senhor ou nos afastamos de Deus. Como o coração é direcionado ou para Deus ou contra ele, o pensamento teórico nunca é tão puro ou autônomo como muitos gostariam de pensar que fosse.(12)
Graça, conhecimento e mistério
“Quanto mais conhecemos Deus, mais compreendemos, e sentimos que seu mistério é inescrutável”, comenta Brunner (1889-1966).(13) De fato, à medida que nos aprofundamos no conhecimento de Deus, cresce em nós a percepção da grandiosidade e do mistério que O envolve.(14)
A douta ignorância é parte essencial da fé genuína e sincera.(15) O reconhecimento de nossa limitação não é inato, mas precedido pela revelação divina. Em síntese: é por meio da revelação que tomamos consciência do mistério inescrutável de Deus.
Nosso conhecimento pode ser real e autêntico, mas permanece fragmentado e limitado.(16) Ainda assim, devemos nos alegrar por poder conhecer. O Senhor não exigirá de nós além do que nos foi concedido, mas requer fidelidade tanto no muito quanto no pouco. (17)
Sem revelação, nada sabemos sobre Deus. É pela graça objetiva da revelação e pela iluminação interior do Espírito que começamos a saber − e a descobrir que não sabemos. No conhecimento intensivo e experimental de Deus, ampliamos reverentemente nossa compreensão e, ao mesmo tempo, percebemos o quanto ignoramos.
Sem revelação, o ser humano passaria toda a sua vida − e a eternidade − sem qualquer conhecimento de Deus, por mais engenhosos fossem seus métodos, por mais sistemáticas suas pesquisas, por mais que a ciência evoluísse ou a lógica se refinasse. O homem jamais alcançaria Deus, nem mesmo a ideia de Deus: ignoraria eternamente a própria ignorância. Deus, porém, continuaria sendo o que sempre foi − o Senhor.(18)
Graças a Deus, que soberana e graciosamente se revelou a si mesmo, para que pudéssemos conhecê-lo e render-lhe toda a glória que somente a Ele é devida.
Deus Revelado: A Plenitude da Revelação em Cristo
Em Cristo, somos confrontados com o clímax e a plenitude da revelação de Deus (Jo 14.9-11; 10.30; Cl 1.19; 2.9; Hb 1.1-4). Nele, o invisível se torna visível, o eterno se manifesta no tempo, e o mistério se revela com graça e verdade.
Calvino afirma com precisão: “Tudo quanto diz respeito ao genuíno conhecimento de Deus constitui um dom do Espírito Santo.”(19) A Trindade nos deu a Trindade. O Deus Tripessoal se revelou a nós.
Lewis (1898-1963) escreve de forma perspicaz:
O ateísmo (…) é uma coisa por demais simplista. Se todo o universo não tem sentido, nunca descobriríamos que ele não tem sentido, do mesmo modo que, se não houvesse luz no universo, nem, consequentemente, criaturas com olhos, nunca saberíamos que era escuro. A palavra escuro seria uma palavra sem sentido.(20)
Deus, Senhor do real que se revela fidedignamente
Deus se revelou de forma fidedigna e acessível. Hendriksen (1900-1982) declara: “No Filho temos a revelação última de Deus. Da mesma forma como é verdade que quem viu o Filho viu o Pai, também é verdade que quem não viu o Filho, não viu o Pai.” (21) Jesus Cristo, plenitude da graça encarnada, é a medida da revelação − seu padrão e apelo final.
Bavinck (1854-1921) exulta:
A plenitude do ser de Deus é revelada nele. Ele não apenas nos apresenta o Pai e nos revela Seu nome, mas Ele nos mostra o Pai em Si mesmo e nos dá o Pai. Cristo é a expressão de Deus e a dádiva de Deus. Ele é Deus revelado a Si mesmo e Deus compartilhado a Si mesmo, e, portanto, Ele é cheio de verdade e também cheio de Graça.(22)
Deus não é uma força impessoal sem racionalidade. Ele é o Deus transcendente e pessoal que se revela genuinamente, com quem podemos nos relacionar: ouvir, amar, temer, confiar e orar. (23)
Apesar das limitações da linguagem humana, o termo “pessoal”, em contraste com o “impessoal”, faz jus ao que as Escrituras revelam sobre Deus. As forças impessoais são dirigidas por um Deus pessoal.(24)
A linguagem usada para Deus, por força da revelação, tem caráter relacional. Deus se relaciona com seu povo na história. Ele não é apenas um princípio absoluto, distante e inacessível, mas uma Pessoa Absoluta que se revela. É a partir do relacionamento de Deus com a criação − e com o homem em especial − que a teologia se torna possível.
A revelação é justamente isso: a passagem do Deus consigo para o Deus conosco. Do Deus absconditus ao Deus revelatus. Aspectos do caráter de Deus se revelam em suas relações com suas criaturas.(25)
O mundo do conhecimento pertence a Deus. Ele é o seu autor e revelador. Logo, todo e qualquer conhecimento quer empírico, quer filosófico, quer científico, quer teológico(26) que o homem tenha ou possa ter, é parte do conhecimento de Deus expresso na sua Criação. Desta forma, podemos dizer que não existe conhecimento fora de Deus.
Apesar de nossas limitações e da loucura de pensar autonomamente, Deus, o Senhor glorioso e majestoso, torna-se conhecido por nós − não por nossos esforços, mas porque Ele graciosamente se dá a conhecer de forma acessível à nossa capacidade. Nossas especulações e induções são incapazes de nos conduzir ao conhecimento salvador de Deus.
Toda analogia que tentamos aplicar a Deus é sempre tacanha, pobre e temerária. Por isso, a revelação divina é sempre uma autorrevelação consciente, majestosa e objetiva. Na expressão de sua natureza gloriosa, Deus traz beleza variada e harmoniosa à criação.
Nossa fé encontra seu fundamento na autorrevelação de Deus − a realidade absoluta com a qual Ele vem ao nosso encontro e nos confronta. (27) É pela revelação que conhecemos a incompreensibilidade de Deus. Ou seja, é por Deus que sabemos da sua inesgotabilidade.
As Escrituras não tratam Deus como um ser confundido com a matéria (panteísmo), (28) nem como uma divindade ausente e distante (deísmo), (29) como ocorre no pensamento pagão. Antes, mostram Deus tal como Ele se revela.
Esse princípio é basilar para a fé cristã: a revelação divina é a única fonte e possibilidade real de conhecermos a Deus.(30) É Deus quem se dá a conhecer − e é Ele mesmo quem nos capacita para conhecê-lo. Sem revelação, não há sequer um “sim” ou “não” referentes a Deus. Sem revelação, não haveria teísmo nem ateísmo.
O Deus das Escrituras é aquele em quem podemos confiar, a quem podemos orar e por cuja Palavra podemos nos conduzir. Ele é fiel. Ele é o Senhor. Ele é o nosso Pastor.
Algumas considerações
A teologia cristã, fundamentada na revelação divina, reconhece que todo verdadeiro conhecimento de Deus é dom gracioso do próprio Deus. A Escritura não apenas informa, mas transforma, conduzindo-nos do saber ao temor, da especulação à adoração.
A revelação não é um mero depósito de verdades abstratas, mas o convite amoroso de um Deus pessoal que se dá a conhecer, não por necessidade, mas por graça. Em Cristo, temos o ápice dessa revelação: o Verbo encarnado, plenitude da graça e da verdade, em quem o invisível se torna visível e o eterno se aproxima do tempo.
A consciência da nossa limitação − a douta ignorância − longe de ser obstáculo, é condição para a fé autêntica. Saber que não sabemos tudo é reconhecer que dependemos Daquele que tudo sabe. Como afirmou Calvino, ignorar o que não é lícito ne possível saber, é sabedoria.(31)
Por fim, a teologia que nasce da revelação é sempre uma teologia do louvor. Conhecer a Deus é adorá-lo. E adorá-lo é confessar, com humildade e alegria, que Ele é o Senhor − fiel, soberano, glorioso e acessível. Que toda nossa reflexão nos conduza à reverência, e toda nossa reverência nos conduza à esperança.
A Deus, somente, seja a glória. Amém!
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(1) Veja-se: Carl F.H. Henry, Deus, Revelação e Autoridade v. 2: Deus que fala e age – 15 teses – parte um, São Paulo: Hagnos, 2017, p. 225, 254.
(2) Veja-se: Hermisten M.P. Costa, Princípios bíblicos de adoração cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2009.
(3) “A perda total de significado implícita no ateísmo é de mais para que muitos suportem. As pessoas precisam de alguns valores, alguns padrões, algumas maneiras para orientar suas vidas. Entre essas pessoas, aqueles que continuam a resistir à crença no verdadeiro Deus tornam-se inconsistentes quanto ao seu ateísmo, ou tornam-se idólatras. Se não querem o verdadeiro Deus, terão de procurar outro” (John Frame, Apologética para a Glória de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p. 150).
(4) “Qualquer que seja esse nosso objeto de preocupação fundamental, isso será o nosso deus. Por esta razão, não existem ateus genuínos. Encontramos, em vez disso, pessoas que veneram ou adoram coisas ou ideias em lugar do único Deus verdadeiro” (Ronald H. Nash, Cosmovisões em Conflito: escolhendo o Cristianismo em um mundo de ideias, Brasília, DF.: Monergismo, 2012, p. 39).
(5)“A forma extrema da idolatria é o humanismo, que vê o homem como a medida de todas as coisas” (R.C. Sproul, O que é a teologia reformada: seus fundamentos e pontos principais de sua soteriologia, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 33). Veja-se também: R.C. Sproul, A santidade de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 205. Na provável primeira carta que Calvino escreveu depois de ter se fixado em Genebra (1536), alegra-se com o avanço da Reforma e a consequente diminuição da superstição e idolatria. Então diz: “Deus permita que os ídolos sejam erradicados também do coração” (Carta escrita ao seu amigo Francis Daniel no dia 13 de outubro de 1536. In: João Calvino, Cartas de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 30). Veja-se também: João Calvino, Instrução na Fé, Goiânia, GO: Logos Editora, 2003, Cap. 8, p. 22.
(6)Nietzsche (1844-1900), quase 100 anos depois, saudou jubilosamente a “maioridade” proposta por Kant (E. Kant, Que es la Ilustracion? In: E. Kant, Filosofía de la Historia, 3ª reimpresión, México: Fondo de Cultura Económica, 1987, p. 25. O mesmo texto encontra-se também: In: I. Kant, A paz perfeita e outros opúsculos, Lisboa: Edições 70, (1988), p. 11-19), quando escreve em 1882:
“O maior dos acontecimentos recentes – que ‘Deus está morto’, que a crença no Deus cristão caiu em descrédito – já começa a lançar suas primeiras sombras sobre a Europa. Para os poucos, pelo menos, cujos olhos, cuja suspeita nos olhos é forte e refinada o bastante para esse espetáculo, parece justamente que algum sol se pôs, que alguma velha, profunda confiança virou dúvida: para eles, nosso velho mundo há de aparecer certo dia a dia mais poente, mais desconfiado, mais alheio, mais ‘velho’. (…) De fato, nós filósofos e ‘espíritos livres’ sentimo-nos, à notícia de que ‘o velho Deus está morto’, como que iluminados pelos raios de uma nova aurora; nosso coração transborda de gratidão, assombro, pressentimento, expectativa – eis que enfim o horizonte nos aparece livre outra vez, posto mesmo que não esteja claro, enfim podemos lançar outra vez ao largo nossos navios, navegar a todo perigo, toda ousadia do conhecer é outra vez permitida. O mar, nosso mar, está outra vez aberto, talvez nunca dantes houve tanto ‘mar aberto’.” (F. Nietzsche, Gaia Ciência, São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, v. 32), 1974, § 343, p. 219-220. Vejam-se: F. Nietzsche, O Anticristo: Ensaio de uma Crítica do Cristianismo, São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, v. 32), 1974, § 16, p. 357-358; F. Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, São Paulo: Hemus, 1977, p. 238-239, 264-265).
Rushdoony (1916-2001), interpretou corretamente o espírito iluminista: “O Iluminismo veio como contramovimento à Reforma e um avivamento do humanismo greco-romano” (Rousas J. Rushdoony, A Filosofia do Currículo Cristão, Brasília, DF.: Monergismo, 2019, p. 27).
(7) “Para o humanismo, o homem é sua lei e o próprio legislador, de forma que a aprovação social é o melhor teste da lei.” (Rousas J. Rushdoony, A Filosofia do Currículo Cristão, Brasília, DF.: Monergismo, 2019, p. 25).
(8) Sem dúvida, esse tipo de construção corresponderia à interpretação de Feuerbach (1804-1872) sobre teologia. De fato, se a teologia se limitar a ser um reflexo daquilo que o homem pensa de si mesmo, poderíamos reduzir “a teologia à antropologia” (Veja-se: L. Feuerbach, A Essência do Cristianismo, Campinas, SP.: Papirus, 1988, Prefácio à 2. edição, p. 35 e p. 55). Para Feuerbach a religião era apenas uma projeção da razão humana, a objetivação da sua essência. “Pelo Deus conheces o homem e vice-versa pelo homem conheces o seu Deus; ambos são a mesma coisa. O que é Deus para o homem é o seu espírito, a sua alma e o que é para o homem seu espírito, sua alma, seu coração, isto é também o seu Deus: Deus é a intimidade revelada, o pronunciamento do Eu do homem; a religião é uma revelação solene das preciosidades ocultas do homem, a confissão dos seus mais íntimos pensamentos, a manifestação pública dos seus segredos de amor.” (Ibidem., p. 55-56. Veja-se também, p. 57 e 77). A razão é o critério último de toda a realidade (Ibidem., p. 81); “é a medida de todas as medidas” (Ibidem., p. 84). Deus é uma entidade criada pelo homem à imagem de sua razão: “Como tu pensas Deus, pensas a ti mesmo a medida do teu Deus é a medida da tua razão. Se pensas Deus limitado, então é a tua razão limitada; se pensas Deus ilimitado, então a tua razão não é também limitada (…). No ser ilimitado simbolizas apenas a tua razão ilimitada” (Ibidem., p. 82). Karl Marx (1818-1883), interpretando a concepção de Feuerbach, diz que este “resolve o mundo religioso na essência humana” (Karl Marx, Teses Contra Feuerbach, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 35), 1974, § 6, p. 58). Acrescenta: “Feuerbach não vê, pois, que o próprio ‘ânimo religioso’ é um produto social e que o indivíduo abstrato, analisado por ele, pertence a uma esfera social determinada” (Ibidem., § 7, p. 58).
(9) John M. Frame, A History of Western Philosophy and Theology, Phillipsburg, New Jersey: P&R Publishing, 2015, p. 7. Vejam-se: François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 245-249; Herman Bavinck, A Certeza da fé, Brasília, DF.: Monergismo, 2018, p. 32-33.
(10) K. Barth, Church Dogmatics, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 2010, 1/1, p. 306.
(11)“Até mesmo a robusta rejeição que o ateu faz de Deus é uma declaração teológica. A pergunta é se a nossa teologia é verdadeira ou falsa” (Joel R. Beeke; Paul M. Smalley, Teologia Sistemática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2020, v. 1, p. 37).
(12)Ronald H. Nash, Cosmovisões em Conflito: escolhendo o Cristianismo em um mundo de ideias, Brasília, DF.: Monergismo, 2012, p. 35. “O secularismo nega, exclui e suprime os ideais e valores morais dos outros enquanto mantém o mito da própria neutralidade” (Alister E. McGrath, Surpreendido pelo sentido: ciência, fé e o sentido das coisas, São Paulo: Hagnos, 2015, p. 166).
(13) Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 156. “O mistério é a força vital da dogmática” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 29). “A teologia cristã sempre tem a ver com mistérios que ela conhece e com os quais fica maravilhada, mas não compreende, nem sonda” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 619).“Quanto mais compreendemos a verdade de Deus, mais somos chocados pelo mistério” (Michael Horton, Doutrinas da fé cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 32). Dentro de outro tema, escreveu Packer: “Seja como for, não devemos ficar surpresos ao encontrar mistérios dessa espécie na Palavra de Deus. Pois o Criador é incompreensível para as suas criaturas. Um Deus que pudesse ser exaustivamente compreendido por nós, cuja revelação sobre Si mesmo não nos apresentasse qualquer mistério, seria um Deus segundo a imagem do homem e, portanto, um Deus imaginário, e nunca o Deus da Bíblia” (J.I. Packer, Evangelização e Soberania de Deus, 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 20). (Vejam-se: Morton H. Smith, Systematic Theology, South Carolina: Greenville Seminary Press, 1994, p. 100ss.; Louis Berkhof, Teologia Sistemática, 4. ed. Revisada, (6ª Reimpressão), São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 47.).
(14) “O verdadeiro mistério só pode ser entendido como um mistério genuíno mediante a revelação” (Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 157).
(15) Ver: João Calvino, As Institutas, III.21.2; III.23.8. Na edição de 1541, escrevera: “E que não achemos ruim submeter neste ponto o nosso entendimento à sabedoria de Deus, aos cuidados da qual Ele deixa muitos segredos. Porque é douta ignorância ignorar as coisas que não é lícito nem possível saber; o desejo de sabê-las revela uma espécie de raiva canina” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3 (III.8), p. 53-54). Semelhantemente, François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 647-648.
(16) Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 98, 110.
(17) Veja-se: Karl Barth, Esboço de uma Dogmática, São Paulo: Fonte Editorial, 2006, p. 10.
(18) “Ainda que o mundo inteiro fosse incrédulo, a verdade de Deus permaneceria inabalável e intocável” (João Calvino, Gálatas, São Paulo: Paracletos, 1998, (Gl 2.2), p. 48-49). Posteriormente, li em Piper: “Nem fúria nem violência, nem dúvidas sofisticadas ou ceticismo, tem qualquer efeito sobre a existência de Deus” (John Piper, O Legado da Alegria Soberana: a graça triunfante de Deus na vida de Agostinho, Lutero e Calvino, São Paulo: Shedd, 2005, p. 125).
(19) João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 12.3), p. 373.
(20)C.S. Lewis, A essência do Cristianismo autêntico, São Paulo: Aliança Bíblica Universitária, (1979), p. 21.
(21) William Hendriksen, O Evangelho de João, São Paulo: Cultura Cristã, 2004, (Jo 14.9), p. 657.
(22)Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP. 2001, p. 25-26. “Deus se revelou mais abundantemente no nome ‘Pai, Filho e Espírito Santo’. A plenitude que, desde o princípio, estava no nome Elohim, foi gradualmente desenvolvida e tornou-se mais plena e manifestamente expressa no nome trinitário de Deus” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 150).
(23) “A principal ênfase do cristianismo bíblico consiste na doutrina de que um Deus infinito e pessoal é a realidade final, o Criador de todas as outras coisas, e de que um indivíduo pode se aproximar do Deus santo com base na obra consumada de Cristo, e somente desse modo” (Francis A. Schaeffer, O Grande Desastre Evangélico. In: Francis A. Schaeffer, A Igreja no Século 21, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 272).
(24) Veja-se: John Frame, Teologia Sistemática, São Paulo: Cultura Cristã, 2019, v. 1, p. 90-91.
(25)Cf. A.H. Strong, Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos, 2003, v. 1, p. 21.
(26) Quanto aos tipos de conhecimento, veja um resumo em: Hermisten M. P. Costa, Introdução à metodologia das ciências teológicas, Goiânia, GO.: Cruz, 2015.
(27) Veja-se: Carl F.H. Henry, Deus, Revelação e Autoridade v. 2: Deus que fala e age – 15 teses – parte um, São Paulo: Hagnos, 2017, p. 232ss.
(28)Panteísmo (“Pan” (pa=n = tudo, todas as coisas) & “Theós” (qeo/j = Deus)), é a doutrina que ensina que não há nenhuma realidade transcendente e que tudo é imanente; por isso, Deus e o mundo formam uma unidade essencial, sendo, portanto, a mesma coisa, constituindo um todo indivisível; por isso a negação da transcendência de Deus visto que Ele se confunde com a própria matéria, sendo esta a própria manifestação de Deus.
A Bíblia não confunde Deus com a matéria; antes, afirma que Deus criou a matéria (Gn 1.1) e a sustenta com o seu poder (Cl 1.17; Hb 1.3). Esta distinção entre o Deus Criador e a criação é um ensinamento fundamental das Escrituras.
(29)Deísmo é uma denominação genérica das doutrinas filosófico-religiosas que surgiram em meados do século XVII, as quais, contrapondo-se ao “ateísmo”, afirmavam a existência de Deus; entretanto, negavam a Revelação Especial, os milagres e a Providência. Esse Deus é concebido preliminarmente como a causa motora do universo. Uma das ideias predominantes, era a de que um Deus transcendente criou o mundo dotando-o de leis próprias e retirou-se para o seu ócio celestial, deixando o mundo trabalhar conforme as leis predeterminadas. Uma figura comum ao deísmo do século XVIII era a do relógio de precisão que seria o equivalente ao universo que trabalha sozinho depois de se lhe dar corda. Neste caso, Deus seria uma espécie de relojoeiro distante, apenas observando a sua criação sem “intervir” em suas questões cotidianas. A conclusão chegada pelos deístas é a que as leis que regem o universo são imutáveis. O deísmo consequentemente atribui à Criação a capacidade de se sustentar e se governar por si mesma. Temos aqui um naturalismo autônomo.
Desta forma, Deus é um proprietário ausente, que não age diretamente sobre a Criação; a única relação existente entre o Criador e a Criação, dá-se por meio de suas leis deixadas, as quais regem o universo de forma determinista. Deus seria regente do universo “apenas de nome”. O deísmo não deixa de ser um ateísmo prático visto que Deus não é considerado de forma concreta na vida de seus adeptos. Deus sai do cenário real e concreto, mas, o destino e o acaso terminam por ser entronizados. (Para maiores detalhes sobre o panteísmo e o deísmo, vejam-se: Hermisten M.P. Costa, O Homem no teatro de Deus: providência, tempo, história e circunstância, Eusébio, CE.: Peregrino, 2019, p. 96-101).
(30) Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Prolegômena, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 207ss.
(31)Veja-se: João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3 (III.8), p. 53-54. De modo comparativo, veja-se também: João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 40.5), p. 223.





